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Invasão estrangeira na Amazônia ameaça produção de alimentos

20/12/2011 - [16h:00m] - Internacional      Diminuir Aumentar

 

MANAUS – A Amazônia está sendo invadida por um exército numeroso e voraz. Indivíduos estrangeiros estão transpondo “secretamente” nossas fronteiras e causando danos ao agronegócio brasileiro. Esta verdadeira força de invasão é composta por insetos e ácaros capazes de destruir plantações de citros e prejudicar a produção de leite no Amazonas e no resto do país.

O alerta vem dos pesquisadores do Laboratório de Entomologia e Acarologia Agrícola da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “Pelo menos quatro pragas que representam grande prejuízo para a plantação de citros, banana e também a criação de gado entraram no país pela Amazônia. A porta de entrada são as nossas fronteiras com o SurinameGuiana Inglesa e Venezuela”, diz o entomólogo, Néliton Marques da Silva.

O pesquisador afirma que as pragas que cruzaram as fronteiras brasileiras na Amazônia ameaçam não só a economia do Estado, como a do resto do país. Entre elas está a mosca-dos-chifres, de procedência europeia, que suga o sangue do gado e compromete a produção de leite ao estressar o animal. A ação desta mosca encarece o processo produtivo ao exigir medidas de controle por meio do uso de inseticidas e diminuir a quantidade de leite por vaca.

Outra praga perigosa, vinda da Ásia, é a mosca-negra-dos-citros. “Este inseto, que entrou no país em 2001 pelo Pará e chegou ao Amazonas em 2004, suga a seiva das plantas, provoca a proliferação de fungos nas folhas e reduz a produção em até 80%. Essa mosca tem preferência por plantações de citros”, afirma a entomóloga, Márcia Reis Pena.

A mais recente invasão ficou por conta do ácaro vermelho, originário da Europa. Ele entrou no Estado em 2011 e ataca, principalmente, as plantações de banana. “Essa praga já está na área urbana de Manaus, foi identificada por mim e outros colegas no Parque do Idoso e próximo à reitoria da UEA. Ele ataca, principalmente, plantações de coco e banana”, alerta o acarologista, Geraldo José Nascimento de Vasconcelos.

A próxima invasão pode ficar por conta da cochonilha rosada, que já foi detectada na Guiana Inglesa e tem origem na Índia. “Estamos preocupados com a entrada desta praga, pois ela ataca mais de 200 espécies de plantas, muitas delas de importância para o Brasil. Podemos citar o feijão, os citros, café, cacau, uva, coco e outras”, alerta Néliton Marques.

Impactos econômicos da ação das pragas

A ação das pragas sobre o agronegócio regional e nacional tem potencial para causar muitos prejuízos. Em se tratando dos citros, a mosca-negra-dos-citros e a cochonilha rosada ameaçam a posição brasileira de maior produtor mundial, com um milhão de hectares plantados e cuja maior parte destina-se à indústria de sucos. No Amazonas, segundo a Secretaria de Estado da Produção Rural (Sepror), 5.293 produtores tiram seu sustento da produção de citros. Juntos, eles produziram na última safra 73 milhões de frutos.

Plantação de laranja atingida pela mosca-negra-dos-citros. Foto: Márcia Pena

O ácaro vermelho é um risco à produção de banana no país, que ocupa o segundo lugar em volume produzido quanto em área plantada. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Região Norte detém 26% da produção nacional. Dados do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (Idam), revelam que o fruto é o mais consumido pela população do Amazonas, com uma produção anual de 8.350.000 cachos.

Já a mosca-dos-chifres tem potencial para estancar o crescimento ou causar a diminuição na produção de leite nacional e regional. A Embrapaindica que a produção de leite no país aumentou em 10 bilhões de litros entre os anos de 2001 e 2010, atingindo a marca de 30,4 bilhões litros no (?) ano passado. No Amazonas, a produção também subiu de 40,6 mil litros em 2008 para 51,1 em 2010.

A ciência como principal “arma” contra as pragas

Na “guerra” contra as pragas, o trabalho dos pesquisadores consiste em identificar as espécies invasoras e obter informações sobre o seu ciclo de vida na Amazônia. “A nossa pesquisa inova ao obter dados sobre como essas pragas se comportam na Região. Os dados ajudam os produtores a controlarem as pragas por meio decontrole biológico ou inseticidas e reduzirem as perdas”, explica Néliton Marques.

O combate à mosca-negra-dos-citros e ao ácaro vermelho deve ganhar novas armas com o resultado das pesquisas realizadas no Amazonas. “Identificamos um fungo chamado aschersonia que tem apresentado bons resultados na destruição das larvas da mosca-negra-dos-citros antes delas causarem danos às folhas. Ele se desenvolve dentro do corpo da praga e não causa danos à planta”, conta Márcia Pena.

Mosca-negra-dos-citros sugando a seiva de uma folha de laranjeira. Foto: Divulgação

Devido ao fato de não haver acaricidas licenciados no Brasil capazes de combater o ácaro vermelho, os pesquisadores também apostam no controle biológico. “Encontramos alguns ácaros nativos que são predadores do ácaro vermelho e podem ser usados no seu controle. Por outro lado, pesquisamos também extratos de plantas amazônicas com propriedades acaricidas, ou seja, capazes de matar a praga”, diz Geraldo Vasconcelos.

O conhecimento científico produzido sobre as pragas dará suporte ao desenvolvimento de técnicas de controle biológico e ao desenvolvimento de novos acaricidas e inseticidas. “Após finalizarmos as pesquisas, começa outra fase que diz respeito ao treinamento de técnicos do governo para ensinar os produtores e controlar as pragas e a participação de empresas que queiram investir no lançamento de novos inseticidas e acaricidas”, afirma Márcia Pena.

Ação de fiscais em uma barreira sanitária de combate a pragas. Foto: Divulgação

Barreiras sanitárias e conscientização ajudam a prevenir pragas

Um gesto aparentemente inocente de colher uma flor ou levar para casa uma fruta comprada no exterior pode abrir caminho para a chegada de uma nova praga ao país. “As pessoas quando colhem folhas, galhos ou compram frutas em países já infestados correm o risco de estarem transportando insetos e ácaros minúsculos para o Brasil. Nestes casos, é muito difícil as barreiras sanitárias nas rodovias, portos e aeroportos terem sucesso”, diz Néliton Marques.

Apesar da constatação científica da entrada de várias pragas no Estado, sendo a última delas o ácaro vermelho este ano, o Governo do Amazonas afirma que são mantidas barreiras sanitárias em todos os municípios que fazem fronteira com estados vizinhos. “Isso revela a importância desse serviço. Sem ele é impossível fazer a defesa de nossas plantações”, diz o secretário de Estado da Produção Rural, Eron Bezerra.

No caso de infestação por meio da compra de produtos importados, a responsabilidade de manter o Brasil livre de pragas é do Ministério da Agricultura e do Abastecimento (MA).

Fonte: Portal Amazônia

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