Uma média de 12 mil mulheres são vítimas de violência, por ano, em Manaus, o que equivale a pelo menos mil casos por mês. As informações são da titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), Lia Cordeiro. Ela considera um número elevado, porém não tão preocupante, já que o alto índice de registros é, segundo ela, devido à coragem das mulheres em ir às delegacias denunciar seus agressores. “Antes esse número era menor porque as vítimas não se sentiam seguras para denunciar seus agressores. Elas perderam o medo e isso é muito positivo”, disse a delegada.
Nessa sexta-feira (25), no dia que foram comemorados os 30 anos do “Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres”, a garçonete Gracilene Vieira dos Santos, 20, foi a primeira vítima de violência doméstica a chegar à delegacia e registrar ocorrência contra o companheiro. Ela carregava no corpo a marca da agressão.
A garçonete contou que foi agredida depois que chegou do trabalho. Gracilene trabalha como garçonete em uma lanchonete no Centro da cidade. A jornada de trabalho inicia às 15h e encerra somente às 22h. O companheiro não aceita que ela saia de casa para trabalhar e, ontem, ele a agrediu, empurrando-a contra a parede, o que resultou em escoriações por todo o corpo.
“Eu ainda o amo, mas cansei de apanhar”, justificou a garçonete. Ela já convive com o agressor há sete anos e tem quatro filhos com ele. Gracilene disse que já vem sendo agredida há muito tempo, sempre pelo mesmo motivo: ciúme. Ela conta que é constantemente ameaçada de morte caso o marido a encontre com outro homem. Gracilene disse que voltou para a casa da mãe com os filhos e não quer mais voltar a viver com o companheiro. Segundo a delegada, a maioria das mulheres que denuncia sofreu agressão física mais de uma vez, antes de tomar coragem de entregar o agressor.
Maria Helena (nome fictício), 47, também chegou cedo à delegacia para uma audiência com a delegada Lia e o marido. No dia 24 de outubro, ele a agrediu com um cinturão. Ela contou que convive com ele há 23 anos, tem três filhos e que durante esse tempo sempre foi agredida. Mas por amor e pelos filhos, nunca o denunciou. Desta vez, ela resolveu denunciá-lo na delegacia e disse que não quer mais viver com ele. “A agressão aconteceu porque ele estava em um bar bebendo com amigos e eu fui pedir dinheiro. Ele disse que não ia dar dinheiro para vagabunda e mandou que eu fosse trabalhar. Eu fiquei com muita raiva e o empurrei. Daí ele me espancou com cinturão e saiu de casa.”
Ameaça e lesão corporal são comuns
O crime de ameaça é o campeão de registros, seguido de lesão corporal e crimes contra a honra. Os autores são os companheiros e pais.
A presidente do Conselho estadual dos Direitos das Mulheres, Isis Tavares, concorda com a delegada Lia Cordeiro quando diz que o número de violência registrado nas delegacias aumentou porque as mulheres estão denunciando mais. “Queremos acabar com a cultura de que agressões nas famílias são comuns. Violência familiar é coisa de polícia.” Ela ressaltou que é importante que os atos de violência contra a mulher sejam denunciados não só pela vítima, mas também por qualquer pessoa da sociedade. “O silêncio é cúmplice da violência e pai da impunidade.”
Para a delegada Lia, as mulheres estão denunciando mais porque estão mais conscientes de seus direitos, como por exemplo a medida protetora de urgência, quando ela não tem onde ficar e corre risco de morte. “Essa vítima é levada para um local seguro e fica sob proteção, tendo acompanhamento psicossocial.”
Na manhã da última sexta-feira, integrantes do movimento “Paz na Família” lembraram a data de luta contra a violência na bola Eldorado, Parque Dez, Zona Centro-Sul.
Cultura machista influencia mulheres
Segundo integrantes de movimentos de combate à violência contra a mulher, muitas ainda estão sofrendo caladas. Por isso há a necessidade da participação de toda a sociedade e do Estado, com políticas sociais de conscientização.
Segundo a antropóloga Iraildes Torres, há vários elementos que levam a mulher passar a maioria de seu tempo de vida sofrendo violência. “Ainda bem que isso está mudando”, disse. Um deles é quando há um suposto amor verdadeiro, quando, na verdade, não existe respeito. A necessidade de se ter um companheiro é outro elemento, já que a sociedade considera as que não têm como “mal amadas” ou recalcadas. “Por isso, embora sofrendo violência, ela prefere ficar com companheiro.”
Um outro motivo, segundo a antropóloga, é quando a mulher depende financeiramente do companheiro. “Esse é outro quesito que a leva a suportar todos meios de violência”, explicou Tavares. A mentalidade paternalista e machista ainda existente na sociedade, de que o homem é o responsável por prover a família e, por isso, tem o direito de mandar, o que acaba resultando em uma condição de subserviência.
Fonte: A Crítica - Luiz Vasconcelos
zenaide pontes silva - 27/11/2011 : 22h:44m
infelizmente isso ainda acontece e muito.ja precisei da delegacia da mulher la no acre e fui muito mal atendida,praticamente humilhada.tudo por eu era apenas dona de casa.e estava dando queixa de um sargento do exercito meu ex marido.muitas mulheres morrem apos ter dado queixa dezenas de vezes.
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