Está uma festa! Tem gente que jura: vai plantar soja até no quintal de sua casa. Outros mais exagerados garantem que as flores do jardim vão dar lugar às vagens da badalada leguminosa. Excessos a parte, posso garantir que tudo caminha para um quadro de problemas. A disparada dos preços internacionais de algumas commodities - sobretudo a soja, pela sua importância em várias cadeias de produção de alimentos – está fazendo com que muitos agricultores brasileiros deixem de apostar em outros cultivos, cedendo estas áreas para o plantio de oleaginosa já a partir de setembro.
Para quem não sabe, a soja é utilizada na fabricação e elaboração de vários produtos como hambúrguer, sorvete, queijo, carne, leite, bebidas, molhos, salgados, biscoitos, óleos e muito mais. Atenção, desavisados: a soja e o milho são responsáveis pelos seus churrascos. Sem estes grãos, ficaria quase impossível reunir os amigos nos finais de semana para saborear uma bela picanha bovina, uma costelinha de porco e uma suculenta sobrecoxa de frango.
Bom, mas se esse “boom” de cultivo realmente acontecer e da forma com que muitos especialistas estão alertando, teremos uma espécie de “monopólio branco” (disfarçado), ou seja, uma concentração excessiva de cultivo sobre um grão. Ainda é cedo para saber se o mesmo desbunde agrícola acontecerá na segunda safra a partir de fevereiro, quando a soja tende a dar lugar, em cultura de sucessão, ao milho – outro com remuneração nas alturas - em boa parte das áreas agrícolas do Brasil.
O fato, no entanto, é que a euforia com relação à soja é grande e perigosa. Em Goiás e no Paraná, por exemplo, têm produtores largando o feijão para apostar apenas na sojicultura. “Tá dando mais dinheiro”, alegam. O mesmo acontece em proporções e regiões diferentes com o algodão e, sobretudo, com área de pastagem. Mesmo culturalmente avesso, tem pecuarista tradicional “virando” agricultor num piscar de olhos. Se não faz isso, vende ou arrenda partes das terras. A pressão é grande e o dinheiro rápido é sempre uma tentação, sobretudo para aqueles que ainda esperam de quatro a cinco anos para vender um boi.
O que este quadro – caso se configure – pode trazer de problemas para o abastecimento interno, exportações e para a balança comercial brasileira, ainda é uma incógnita, pois depende muito das flutuações de mercado. No entanto, algumas coisas são claras. A atual ascensão dos preços da soja e do milho acontece, sobretudo, pela quebra da safra 2012 norte-americana, país afetado por um período de estiagem há muito não visto. A expectativa é que dentro de um ano os norte-americanos voltem a jorrar soja e milho para o mundo.
Enquanto isso, o mercado asiático – nosso maior freguês – está mostrando claros sinais de desaceleração. É claro que o chinês não vai deixar de se alimentar. Mas o país está claramente equalizando sua velocidade de crescimento através da utilização dos pedais de acelerador e freio.
Portanto, uma enxurrada de soja brasileira na próxima safra e uma boa perspectiva de produção norte-americano em 2013, podem sim derrubar os preços – não em patamares de crise para o bolso do agricultor – mas para níveis mais modestos do que os atuais. Não se iludam! Analistas garantem que os atuais preços são pontuais. Portanto, todo cuidado é pouco, sobretudo com investimentos.
E, por outro lado, quem vai ganhar com a eventual escassez de produtos como o feijão, arroz e algodão no mercado brasileiro? Evidente que isso passa pela regulagem do mercado mundial. No entanto, a tendência seria de uma remuneração melhor para quem manteve alguma área com estes cultivos.
Mas voltando a soja, é preciso ter ciência dos sérios riscos sanitários que uma febre de plantio pode trazer. Pesquisadores e agrônomos estão começando a temer pela chamada “soja amadora”, aquela cultivada sem qualquer ou com o mínimo de orientação técnica. Outro receio é a adoção sistemática da “soja safrinha”. Mas isso é assunto para outro bate papo.
(*) Ariosto Mesquita é Jornalista e Mestre em Produção e Gestão Agroindustrial – ariostomesquita@globo.com
Fonte: Ariosto Mesquita
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