RESENHA | A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, de Suzanne Collins

Escrita envolvente, narrativa densa e críticas sociais marcam o retorno de Suzanne Collins ao universo de "Jogos Vorazes".

Acredito que, além de questões editorais, há um motivo ainda mais forte pelo qual “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” é o único livro da franquia que não integra o selo “Jovens Leitores” da Editora Rocco: o livro é, por definição, adulto.

Com isso não estou dizendo que jovens, adolescentes ou leitores iniciantes não se identificarão com seus personagens e enredo. Ou que Jogos Vorazes era uma trama infantojuvenil. Mas ao se tratar de “A Cantiga”, estamos falando de questões políticas e sociológicas ainda mais densas. De uma sociedade que – ao contrário do “panem et cirsenses” (pão e circo) que nomeia sua nação – ainda mostra seus instintos mais primitivos.

Antes de lê-lo, confesso que assim como boa parte dos fãs, temia que fosse um livro sobre redenção de Coriolanus Snow. Um livro que “justificasse” sua conduta através de um passado traumático, que mostrasse a origem do seu ódio pelos distritos e que, de certa forma, nos fizesse entender um pouco o lado dele. Algo que o humanizasse. Não é o caso.

A narrativa fluida de Suzanne, algo que ela traz desde “Jogos Vorazes”, nos coloca dentro da cabeça de Coriolanus, e nela nos deparamos com uma ambiguidade que só ocorre na teoria. Estrategista nato, o futuro presidente é extremamente calculista, e com a exceção de dois momentos no livro onde ele age por impulso, sempre pensa nos dois lados da moeda antes de fazer uma escolha. E é exatamente neste ponto que podemos ver a verdadeira face de Snow: em suas escolhas.

Mesmo sabendo das consequências de seus atos, Coriolanus sempre opta por seguir o caminho que lhe privilegia. Mesmo quando você acha que o personagem está sendo passional ou está seguindo um caminho irracional, logo ele prova o contrário. Seu egocentrismo e ambição pelo poder é o que guia a trama, e ainda que sua situação o distancie dos seus objetivos, ele sempre é puxado de volta ao poder.

Ao contrário de Snow, Lucy Gray, a garota do Distrito 12, é mais poética e passional. Ela consegue encantar os moradores de uma Capital mais fria e cinzenta do que nunca. Mas o fato de ser passional em momento algum a faz menos letal. Em seu primeiro momento na trama Lucy Gray mostra o contraste entre uma adorável cantora do Distrito 12 e seu lado mais temível: a garota que manipula serpentes. Os desdobramentos de sua trajetória nos Jogos Vorazes revive ainda mais esse seu lado letal, o que é ótimo para o desenvolvimento da personagem.

As ligações com Jogos Vorazes ocorrem de forma sutil, e tem seu ápice na origem de uma canção já conhecida pelos leitores da franquia. As três partes da trama são momentos e contextos diferentes, o que joga um enorme desafio nas mãos de Francis Lawrence, que dessa vez tem 576 páginas para transformar em filme.

Para dizer que nem tudo são flores, há alguns momentos durante a segunda parte do livro onde a leitura fica mais pesada e os acontecimentos são mais espaçados, e isso ocorre devido à forma mais primitiva e menos espetacularizada como os Jogos Vorazes aconteciam em sua décima edição (não esperem bestantes, campos de força ou hologramas). Mas isso logo se corrige, e Suzanne retoma o ritmo apressado e os cliffhangers de tirar o fôlego nos capítulos que seguem.

Há de se parabenizar, também, a tradução de Regiane Winarski. Especialmente pelas parte das músicas, onde ela conseguiu unir a sonoridade e o respeito às letras originais.

Perante tantos acertos, não seria possível conceder ao livro menos de 5 estrelas. A maturidade da trama, o desenvolvimento dos personagens, a completude do enredo e a fluidez de Suzanne Collins nos tirou o ar em diversos momentos e, ainda mais importante: respeitou a obra original. Nos mostrou, por fim, que Katniss estava certa, e de fato haviam jogos piores para se jogar.

P.S.: Se possível, antes de lerem o livro, pesquisem sobre os autores citados por Suzanne no início do mesmo. Certamente enriquecerá a leitura.

Nota do livro A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes, de Suzanne Collins: 5 Estrelas

INFORMAÇÕES – A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes

Sinopse: UMA HISTÓRIA DA SÉRIE JOGOS VORAZES. AMBIÇÃO O ALIMENTARÁ. COMPETIÇÃO O CONDUZIRÁ. MAS O PODER TEM O SEU PREÇO. É a manhã do dia da colheita que iniciará a décima edição dos Jogos Vorazes. Na Capital, o jovem de dezoito anos Coriolanus Snow se prepara para sua oportunidade de glória como um mentor dos Jogos. A outrora importante casa Snow passa por tempos difíceis e o destino dela depende da pequena chance de Coriolanus ser capaz de encantar, enganar e manipular seus colegas estudantes para conseguir mentorar o tributo vencedor. A sorte não está a favor dele. A ele foi dada a tarefa humilhante de mentorar a garota tributo do Distrito 12, o pior dos piores. Os destinos dos dois estão agora interligados – toda escolha que Coriolanus fizer pode significar sucesso ou fracasso, triunfo ou ruína. Na arena, a batalha será mortal. Fora da arena, Coriolanus começa a se apegar a já condenada garota tributo… e deverá pesar a necessidade de seguir as regras e o desejo de sobreviver custe o que custar.

Título: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes
Título original: The Ballad Of Songbirds And Snakes
Autor(a): Suzanne Collins
Tradução: Regiane Winarski
Editora: Rocco
Data de lançamento: 19/06/2020
ISBN: 978-65-56670-00-3
Páginas: 576
Formato: Livro brochura
Dimensões do livro: Altura: 21cm | Largura: 14cm | Espessura: 30cm | Peso: 604 gramas
Preço: R$ 59,90
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Arquiteto e Urbanista aficionado por Cenografia e Cinema. Administrador do Sobre Sagas desde 2013 e apaixonado por adaptações cinematográficas, especialmente de fantasia.

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